Desporto

Maratona do Porto 2019

Correr uma maratona? Sim, porque não?

De repente eram 6 da manhã e o corredor toca a levantar. Os dias anteriores foram de maior descanso que corrida, com muita hidratação e massinha com tudo nos últimos dias. Quem me conhece sabe que eu nunca quis correr uma maratona... de repente um email do Clube despoleta uma parafernália de respostas e de piadas, inscrições impulsivas e lá estava eu inscrito. Daí à maratona ouvi muita coisa, mas também respondi que não tenho nem disciplina, nem tempo para me preparar seguindo planos de meses.

Continuei a correr o que corria, insisti em algumas corridas mais longas para sentir as pernas e a cabeça e cá vamos a isto. Perguntavam à minha volta: "e então, que tempo vais querer fazer?". "Ora se por um lado sou sempre ambicioso comigo próprio, por outro sou realista..." dizia eu. "Vou tentar seguir o balão das 3:30:00 até aos 30 km e depois logo vejo".

De repente eram 6 da manhã do dito dia (3 de novembro) em que eu ia mesmo correr, em corrida oficial, os meus primeiros 42 km e uns trocos. Já o tinha feito uma vez avulso, sozinho, só porque sim... Mas esta sim, era aquela em que tinha que ser, em que eu ia lá para ganhar aquilo tudo.

Pequeno-almoço tomado, cafés, ultimar preparativos, apanhar o Álvaro Pinto e siga para a grande cidade do Porto. Junto ao edifício transparente haverá muitas fotos dos Millennium Runners. Nós chegámos ainda a tempo de tirar fotos com algumas pessoas. Só me diziam, "vamos aquecer?". "Nah jasus", tanto km para aquecer e esta malta quer começar antes da prova. Muitos desejos de boa prova e toca a entrar para as letras respetivas, ouvir o som de partida e começar num ritmo lento de quem abriu uma torneira devagar.

Procurei os "balões" marcadores das 3:30:00 e segui-os, ora ouvindo música ora não o conseguindo fazer, ora procurando com os olhos das pessoas que passavam ora concentrando-me no meu ritmo, na minha cabeça, no ouvir do corpo que se mantinha sem acusar esforço. Os km passavam... aquele início junto com a Family Race vemos passar mais gente a ritmos desenfreados; depois, quando os deixamos para trás, temos quase 11 km.

Percebemos que há muitas nacionalidades, há muitas vozes que ao longo da prova chamam este ou aquele do passeio. Os km continuavam a apitar no relógio... percorremos a frente de mar desde Matosinhos até à Foz do Rio Douro e percebia eu que estava folgado, mas que não sabia muito bem o que vinha pela frente, por isso, "stay" Rui, "stay", 15 km passados.

Nesta altura seguíamos junto ao Rio, eu continuava a hidratar, a tomar o meu gel, põe auriculares, tira auriculares. Ena, a Alfândega, a Ribeira com os estrangeiros e "Tugas" a incitar-nos... a Ponte D. Luís e a Afurada parecia mesmo ali, mas não era, e de repente já víamos o pessoal da frente a retornar e começávamos a ver as primeiras caras conhecidas... e o pace ia bem, e eu sentia-me bem, e lá continuava com os pacers como que a dizer eu estou.

Passámos novamente a ponte, virámos em direção ao Freixo e os 30 km ali. Chuva nada, o vento continuava com umas rajadas interessantes e, caramba, de repente passava o Túnel da Ribeira. Passávamos novamente no meio de muita gente que puxava por nós. Eu tentava apanhar alguma proteção do vento, continuava a não falhar na hidratação e gel, e continuava a sentir-me bem, forte até.

Os 35 km apitaram antes da Ponte da Arrábida. Rui, "check ok", mas a sensação já não era de frescura absoluta, e ainda a juntar víamos muita gente já a pé, a quebrar... caramba, chuva nada, eu estava a fazer os ritmos que tinha previsto, o vento puxava de frente e entrávamos novamente na Avenida Brasil. "Hahaha", agora sim, 40 km apitam, e o Rui salta na sua motivação, agradece aos 3 pacers das 3:30:00 e começa a aumentar o número de pessoas que ficam para trás, pelo meu aumento de ritmo, e o meu sorriso começa a aumentar.

Estava próximo de acabar tanto km em bom estado, 41; upa, e uma "caimbrasita" a querer despontar. Teimo e aperto o ritmo ainda mais e antes da subida para o queimódromo - e subir é o que eu gosto. Aperta Rui e a cãibra continuava a querer aparecer. 42 km apitam e eu já quase me sentia a voar... sim voar. Andei meses a ouvir um e outro dizer que fazer uma maratona era uma maluqueira, que eu já não ia para novo e "lalala". "Tunga" para esses, mas principalmente para mim e para quem me faz voar; 3:28:16 e o Garmin até mediu mais... 42.62 km.

É bom sentir que acabamos bem. Eu acabei bem, acabei capaz de passar na meta e continuar, voar... Lembro o vento, as pessoas que incitavam, lembro quem partilhava água e um conselho, os sorrisos, os choros... "mas afinal ganhaste a prova?". Sim, a minha prova, a minha cabeça e o meu sorriso num final cheio.

Este ano acabaram esta prova 3.895 pessoas. Eu fui um e amanhã tenho check-up. Parabéns a todos os que terminaram.

By Rui Felgueiras Millennium Runner

Confira aqui os resultados finais das provas nas várias distâncias.

Publicado em 12/11/2019