Desporto

Estrada Nacional 2 - De Chaves a Faro de bicicleta em 2 dias

Relatos de Paulo Fonseca e Manuel Rodrigues

Relato de Paulo Fonseca

Estrada Nacional 2 - Dias 1 e 2 de agosto

A pandemia tudo alterou neste ano de 2020, alterou a vida profissional, a vida pessoal e restringiu a prática desportiva nomeadamente no ciclismo em que todos os eventos que se encontravam agendados foram cancelados ou adiados. Para quem gosta de pedalar e treina regularmente, foi criado um vazio de calendário o que aproveitámos como uma oportunidade de fazer algo diferente.

Em 28 de julho, eu e o Manel Rodrigues, participámos no Porto/Sintra/Lisboa que foi uma fantástica experiência de pedalar 330 km sem a vertente competitiva. Foi um convívio muito bem sucedido que desde logo nos deixou uma grande vontade para outra aventura. Conversámos (eu e o Manel Rodrigues), e se "atacássemos" a EN2!? Despachámos a coisa em dois dias - vamos a isso!

O objetivo era audacioso, fazer a ligação de Chaves a Vila de Rei no 1.º dia e de Vila de Rei a Faro no 2.º dia. Acertámos a data, desafiámos mais uns amigos, preparámos a logística e no dia 31 de junho lá estávamos nós a caminho de Chaves para a grande aventura.

Resumo do 1.º dia

Pouco passava das 6 horas da manhã daquele sábado, dia 1 de agosto, e já nós tirávamos as fotos da praxe junto do Km zero. A 1.ª e menos agradável surpresa que tivemos foi o vento contra, que nos acompanhou de princípio a fim e que bem nos castigou e obrigou a reduzir o ritmo de progressão.

Aproveitámos o fresco da manhã para ir avançando e num ápice estávamos em Lamego onde fizemos a 1.ª paragem para reabastecimento de sólidos e líquidos junto do nosso carro de apoio. Seguimos naquela que era a mais longa subida da jornada até Bigorne. Depois rolámos e descemos ate Castro Daire, de seguida Tondela e Santa Comba Dão, sempre a desfrutar de alguma frescura que ainda conservávamos e das belas paisagens que envolvem a mítica EN2.

Depois de Santa Comba Dão vem uma parte do percurso menos interessante. Lamentavelmente, parte da estrada foi submersa pela Barragem da Aguieira e não foram encontradas alternativas que não fossem de fazer alguns troços no IP3 e estradas segundárias paralelas a esta; assim foi até à Livraria do Mondego onde voltámos a encontrar o percurso original.

Algures perto da Livraria do Mondego tivemos o primeiro percalço, nada de grave: o Nuno Almeida furou. Daqui e diante voltámos a encontrar subidas duras e longas, Vila Nova de Poiares, Góis, Sertã, e por fim, a subida da Lagariça para Vila de Rei, esta última feita já sem a luz do dia. Esta última parte já deixou algumas marcas de cansaço no grupo. Havia que recuperar forças, alimentarmo-nos e descansar para a jornada do dia seguinte igualmente longa.

EN 2 - 1.ª etapa - Chaves/Vila de Rei

Distância percorrida: 360,35 km.
Tempo em movimento: 13:31:50h.
Acumulado de subida: 5.696m.
Potência média ponderada: 183W.
Calorias consumidas: 7.533 calorias.
TSS: 524 unid.
Velocidade média: 26,6 km/h.
Velocidade máxima: 72,0 km/h.
Temperatura média: 24ºc.

Resumo do 2.º dia

Aproveitando o fresco da manhã, já com o pequeno-almoço tomado, deixámos para trás Vila de Rei. Numa estrada larga e maioritariamente a descer, rapidamente chegámos a Abrantes. Daqui em diante, as condições de terreno passaram a ser um pouco menos penosas, maioritariamente plano ou com ligeiro sobe e desce; quando demos por isso já estávamos em Montargil onde fizemos a 1.ª paragem de reabastecimento.

Retomámos o nosso destino rumo a Mora, já com as temperaturas bem mais elevadas, obrigando a uma gestão dos líquidos mais amiúde. O grupo foi sempre colaborando revezando-se à frente uma e outra dupla para que o desgaste fosse o mais uniforme possível. Já com o sol bem a pino chegámos ao mítico Km 500, no Ciborro, onde voltámos a parar para a foto da praxe, para reabastecimento de sólidos e líquidos e recuperar um pouco do cansaço que já era assinalável.

Deste ponto em diante o grupo sentia que já se encontrava numa contagem decrescente para a concretização do grande objetivo, as temperaturas na travessia do interior Alentejano batiam nos 40 graus, o desconforto em cima da bicicleta era bastante, doíam as mãos e pulsos ao ponto de já não sabermos como agarrar a bicicleta, os pés escaldavam e o contacto com o selim também já não era agradável.

Fizemos nova paragem em Aljustrel, comemos e enchemos os bidons e seguimos rumo a Almodôvar onde fomos recebidos na sede do Clube de Ciclismo local, o SCAV, que gentilmente nos ofereceram um lanche. Já só faltavam cerca de 70 km com a Serra do Caldeirão pelo meio. O tempo começou a ficar mais fresco o que nos ajudou a suplantar o que faltava. Após a subida do Caldeirão foi sempre a descer até Faro onde chegámos cansados mas felizes pelo objetivo concluído.

Assinalável o espírito de entreajuda e a abnegação de todos.

EN 2 - 2.ª etapa - Vila de Rei/Faro

Distância percorrida: 365,29 km.
Tempo em movimento: 12:01:15h.
Acumulado de subida: 3.633m.
Potência média ponderada: 154W.
Calorias consumidas: 5.636 calorias.
TSS: 322 unid.
Velocidade média: 30,4 km/h.
Velocidade máxima: 73,1 km/h.
Temperatura média: 27ºc.

Muito Obrigado, Manel Rodrigues, Nuno Almeida, Rui Kompri, Francisco Marques, Nelson Costa e Miguel Talhão.

Relato de Manuel Rodrigues

Estrada Nacional 2 - De Chaves a Faro de bicicleta em 2 dias

Quando o Paulo Fonseca me desafiou para fazermos a EN 2 de bicicleta, disse-lhe que já tinha pensado no assunto, mas só seria desafio para mim se fosse em 2 dias. Pois... Era essa mesmo a ideia, diz-me ele!

Concordámos que seria necessário arranjar mais 3 ou 4 "malucos" para repartirmos o esforço de andar de cara ao vento e assim, no espaço de uma semana, tínhamos um grupo de 7 elementos para encararmos a difícil jornada. Achámos que deveríamos repartir em 2 etapas de cerca de 360 km, ainda que o primeiro dia fosse muito mais duro, face ao desnível do terreno; o segundo dia, aparentemente mais fácil, iriamos ter que contar com o cansaço do dia anterior e eventualmente com o calor das planícies Alentejanas.

Depois de conhecer os companheiros de aventura, confesso que acabei por ficar um pouco preocupado, já que apesar da minha experiência em provas de longa duração, eu era claramente o elo mais fraco deste grupo. Independentemente disso e da minha maior distância de bicicleta ter sido recentemente o Porto-Lisboa (320 km), o meu estado de espírito continuava muito bom. Assim, depois de tudo organizado (obrigado Nelson e Paulo), rumámos até Chaves, no último dia de julho, onde aproveitámos para jantar e conviver um pouco.

Pouco passava das 6 da manhã, quando iniciámos a primeira etapa, que nos iria levar até Vila de Rei, caso tudo corresse bem. Esta parte da N2 é a mais bonita mas também a mais complicada, devido ao muito desnível do terreno que é necessário transpor.

No sábado, ainda ficou mais complicado, devido ao vento, relativamente forte, que teimava em aparecer pela frente. Mas como verdadeiros guerreiros, fomos ultrapassando as dificuldades uma após outra; no meu caso, sofrendo bastante nas subidas, mas desfrutando também nas descidas, feitas a grande velocidade.

Com o acumular dos quilómetros, as coisas foram-se complicando e mesmo sem passar pela frente do grupo, ao Km 260 tive o meu primeiro ameaço de "apagão". Valeu ser um ponto de paragem "obrigatório" (café Roger) onde consegui recuperar um pouco. Com o apoio de todos seguimos até ao objetivo do primeiro dia, onde chegámos já de noite e para além da hora planeada. Valeu-nos um amigo do Paulo, ex-ciclista, que nos acolheu na sua casa e tratou de organizar o jantar e ainda nos animou com as suas histórias, de tal modo que quando nos deitámos já era um pouco tarde e decidimos atrasar um pouco a partida do dia seguinte.

Como resumo do primeiro dia da jornada, ficaram 360 km, em 13:31:50 à média de 26.6 km/h com cerca de 5.696 metros de subida acumulada.

Após uma curta noite, que permitiu recuperar algum do desgaste do dia anterior, preparámos as bicicletas e iniciámos a segunda jornada, com destino a Faro. Para esta etapa contávamos como maiores dificuldades, o cansaço acumulado do dia anterior e as altas temperaturas que normalmente se fazem sentir no Alentejo, nesta altura do ano. Mesmo com o pulso a não querer subir, denotando o estrago do dia anterior, os quilómetros foram ficando para trás a bom ritmo, de tal modo que a velocidade média se mantinha quase sempre acima dos 30 km/h e animados com a música do Francisco Marques, com os mais fortes a manterem o ritmo na frente. Eu continuava na roda, de modo a tentar poupar-me ao máximo. Por volta do meio dia as coisas foram correndo muito bem, com poucas paragens para reabastecimento.

Entretanto estávamos no Alentejo, com um calor intenso (mais de 40 graus) e o acumular das horas começavam a fazer estragos, de tal modo que à entrada de Aljustrel, tive um "grande apagão", que me obrigou mesmo a parar por exaustão. Nesta altura, embora tivesse a certeza que não iria desistir, não sabia bem como continuar...

Mas uns minutos à sombra, o apoio dos companheiros e um staff incrível que nunca deixou que nos faltasse nada, fizeram com que recuperasse o suficiente para podermos continuar. Com o calor intenso a manter-se optámos por fazer um pequeno desvio em Almodôvar, onde fomos muito bem recebidos pelo amigo Pedro Barão do SCAV, que nos presenteou com um lanche para nos dar forças para a parte final. Eu aproveitei ainda para dar um mergulho na barragem, que quase me fez "renascer" e deixou pronto para cumprir os últimos 74 km até Faro, onde iríamos encontrar a última dificuldade, da jornada, a Serra do Caldeirão. Por volta das 22 horas, chegámos finalmente a Faro, com 365 km percorridos, percorridos em 12:01:15, com 3.633m de subida acumulada e uma média de 30.4 km/h.

Em resumo, foi uma grande aventura onde senti que levei o meu corpo até ao limite, com passagens por variadíssimos estados de alma e que só foi possível pelo companheirismo e espírito de entreajuda dos restantes elementos que percebendo das minhas dificuldades, tudo fizeram para me ajudar e da dedicação e empenho do staff, Cris Rodri e Raquel Filipa Rodrigues, que nunca deixaram que nos faltasse nada.

Publicado em 24/08/2020