Desporto

Portugal de Fio a Pavio - Uma estrada, um dia, uma moto

Crónica do Associado Henrique Saraiva

25 de janeiro de 2020. O dia escolhido para o primeiro desafio do novo ano. Ainda era noite, estava frio e nevoeiro, quando cheguei ao marco do Km 0 em Chaves. O objetivo... aquele que deu origem a tudo, era experimentar a novíssima Africa Twin.

Para o fazer de forma consistente e avaliar o comportamento em "situação de viagem" era fundamental fazê-la... longa de preferência. Nada melhor que a Estrada Nacional 2. Afinal, tem todos os condimentos: muitas curvas e algumas retas, muitas subidas e outras tantas descidas, trânsito urbano e muita variedade de pisos (alguns deles uma lástima!). E porque os viajantes fazem com frequência longas tiradas, então a solução era fazê-la num só dia.

1. Os antecedentes

Assim nasceu o Portugal de Fio a Pavio. Depois, a procura dos apoios. A Honda de imediato se chegou à frente. A moto estava garantida. Alojamentos também se arranjaram - os Solares de Portugal continuam a estar com o Viagens ao Virar da Esquina. À última hora, a Red Bull deu-nos asas!

A divulgação nas redes sociais gerou grande animação. A Motojornal, pelo seu lado, deu uma ajuda preciosa. Outra componente do projeto era envolver os concessionários da Honda, utilizando este desafio como um mote para jornadas de convívio com os seus clientes, principalmente aqueles que conduzem as Africa Twin.

Montar esta logística foi tarefa de cerca de 2 meses. E se a Motodiana de Évora antecipadamente aceitou e montou um evento que incluiu "test-drives", uma almoçarada e no final um passeio até Mora onde esperariam a comitiva do Portugal de Fio a Pavio, outros acordaram mais tarde. E foi quase na véspera que soube que a Ondavis de Viseu se propunha juntar um grupo de motards e acompanhar-me no trajeto no distrito de Viseu, com uma paragem no centro desta cidade para as fotos da praxe. Na mesma altura, a combinação com a Masterbike de Tomar: esperariam por nós no Picoto da Melriça, o centro geodésico de Portugal. Foi excelente este envolvimento... mas as implicações no planeamento inicial iriam ser relevantes. Era também em Mora que alguns amigos me esperavam.

Resultado: à partida, verifiquei que me iriam acompanhar até Faro mais 9 motos: 5 Africa Twin (da anterior versão), uma Varadero, uma GS1200, uma KTM Duke 125 (isso mesmo, cento e vinte cinco!) e uma Yamaha R6 com um casal que saiu de casa de Paços de Ferreira às 4 da manhã para ali estar à hora marcada. Por falar em origens, as mais diversas: Lisboa, Évora, Lagoa, Barreiro, Penafiel, Olhos d´Água. De todos apenas 3 já eram amigos que desde a primeira hora fizeram questão de me acompanhar.

A minha viagem começou dois dias antes. Uma primeira paragem para visitar Guimarães. Talvez a terra do Conquistador servisse de inspiração... Depois, chegada a Chaves. Fazer o reconhecimento e preparar a saída para o dia seguinte. Este talvez tenha sido o dia mais tranquilo das semanas anteriores. Mas a ansiedade era muita. Se a certeza de conseguir fazer o percurso existia, já as variáveis que me escapavam ao controlo começavam a assomar ao espírito.

2. A viagem

Passavam poucos minutos das 7h30 quando saímos de Chaves. O nevoeiro e o número significativo de povoações (com a limitação da velocidade) e cruzamentos não permitiu adoptar desde logo uma boa velocidade de cruzeiro. Ainda assim, passámos Vila Real sem contratempos e iniciámos a espetacular aproximação ao Rio Douro. Estrada sinuosa, a paisagem com os célebres socalcos das vinhas e o sol que espreitava por entre as nuvens animavam-nos.

Em Peso da Régua, breve paragem para a foto da praxe. Seguiu-se Lamego. Aí, em plena alameda com vista para o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, aguardavam-nos os companheiros da Ondavis. Iriam fazer-nos companhia até Penacova. Seguimos viagem, duas dezenas de motos, larga maioria de Africa Twins! E se em Castro Daire nos vimos obrigados a fazer um pequeno desvio pela A24 porque a tempestade Elsa tinha feito abater um troço da EN2, foi em Viseu que as coisas se complicaram. O trânsito citadino de um solarengo sábado de manhã complicou o objetivo de parar no Rossio da cidade para a foto de grupo. E quando lá chegámos, mal a pose terminou... uma debandada. O apelo do café foi mais forte! E se a minha intenção era seguir sem esperar, o bom senso mandou que o não fizesse: afinal, havia companheiros que tinham feito centenas de quilómetros para me acompanharem e por outro lado seria indelicado para os convidados da Ondavis. Mais de uma hora de atraso foi o resultado...

Finalmente, ultrapassámos novamente o trânsito da cidade de Viseu e saímos em direção à primeira zona complicada (em termos de navegação) da EN2: a zona da Barragem da Aguieira, principalmente entre Santa Comba Dão e Oliveira do Mondego. Porque a albufeira da barragem submergiu parte do percurso original da EN2, somos obrigados a aproveitar os pedaços que sobraram e utilizar outros que façam a respetiva ligação. Ainda assim, não podia falhar uma paragem no local onde o alcatrão da estrada desaparece debaixo da água da albufeira.

E foi aqui, mais propriamente à entrada de Santa Comba Dão, que a autonomia da R6 pregou uma partida ao casal de Paços de Ferreira. Ao sairem da formação (e sem se aperceberem que era a pior altura para o fazerem sem aviso) acabaram por se perder, acompanhados por uma das Africa Twin que tinha saído de Chaves. Acabaram por fazer a maior parte do resto do percurso sozinhos.

Depois do paredão da barragem, retomámos a EN2 original, num percurso bem bonito, junto à margem esquerda do Mondego. Depois da Livraria do Mondego, em Penacova, despedimo-nos dos companheiros da Ondavis que prosseguiram o seu passeio pelas estradas da região. Parámos pouco à frente, em Vila Nova de Poiares. O Café Central esperava-nos para uma "bucha" rápida (é muito interessante ver o espírito de iniciativa de quem tem o seu negócio junto à EN2 e a aproveita como forma de combater a desertificação da sua região).

Era agora a altura para nos divertirmos um bom bocado. De Poiares, passando por Góis, Pedrógão Grande e até à Sertã, estrada de bom piso com muitas curvas, atravessando serranias que recuperam de tragédias de anos passados, em bom ritmo percorremos esse sobe-desce.

Na Sertã, começou outra zona complicada. Entre esta vila e Alferrarede/Abrantes a estrada original foi substituida por uma via rápida que ainda por cima lhe roubou o nome. Não! A EN2 não é essa. É aquela estrada estreitinha, sinuosa, que passa por minúsculos ajuntamentos de casas, com uma paisagem espetacular que tem o seu ponto de destaque no Penedo Furado.

Quase a chegar a Vila de Rei, o desvio para subirmos ao Picoto da Melriça. Aqui se situa o centro geodésico de Portugal e aqui nos esperavam os amigos da Masterbike de Tomar. Um pequeno convívio, mais curto que o desejado mas compreendido, porque somávamos cerca de 2 horas de atraso relativamente ao plano. A necessidade de tentar recuperar tempo fez com que tivesse descurado alguma comunicação com que estava mais à frente à nossa espera. E também alguma subavaliação da capacidade de recuperar algum tempo quando ultrapassássemos Abrantes e fizéssemos a entrada no Alentejo.

De Vila de Rei a Alferrarede retomámos o traçado da antiga EN2, cujas características se mantinham: sinuoso, estreito, nem sempre com bom piso. Assim chegámos a Abrantes. Atravessámos o Tejo e desde logo se vislumbrou que a paisagem e as características do terreno se alteraram. O contraste é tremendo. Saímos de zonas de serra e entrámos nas longas planícies que nos levariam até ao Algarve.

Aqui tive a noção que o planeado encontro em Mora estava em causa. O atraso de cerca de 2 horas e o facto de já se aproximar o anoitecer antecipava o que na realidade sucedeu. Passada toda a zona de Montargil em ritmo relativamente acelerado (não tão acelerado que não tivesse permitido que um amigo que foi ao nosso encontro nos acompanhasse na sua Forza 300) chegámos a Mora. O grupo da Motodiana já tinha regressado à base. E apenas um resistente, um amigo que aí nos aguardava e que realçou as más notícias. O encontro tinha falhado!

Aqui uma palavra para o nosso Amigo Aires Pereira. Tinha feito questão de nos acompanhar até ao Algarve. Quando o não encontrei em Mora, erradamente supús que tivesse desmobilizado também (e afinal até sabia que tinha reserva de alojamento em Faro...). Lapso imperdoável apenas atribuível ao stress que nessa altura da viagem sentia pelos atrasos não previstos.

Passado Mora, foto da praxe no km 500 no Ciborro e a paragem seguinte foi em Montemor-o-Novo para reabastecimento das motos. A noite tinha chegado e a decisão foi de seguir até Faro sem paragens. Cada um recorreu ao farnel e seguimos viagem. Mantivemos o percurso porque esse era o objetivo e o ritmo foi forte a partir daqui, atendendo às condições do terreno. Não só pela noite mas principalmente porque alguns troços da estrada estão em estado deplorável! A aproximação à Serra do Caldeirão fez-se e as 365 curvas esperavam-nos, com um condimento muito especial: piso húmido! A requerer muita atenção.

Pouco tempo depois reparámos que à frente seguiam umas motos. Cautelosamente fomo-nos aproximando. Eram os nossos companheiros que se tinham separado em Santa Comba Dão! Percorremos o resto do percurso, novamente com a formação inicial e assim chegámos a Faro. Passavam 20 minutos das 22horas. 10 motos ao início e 10 motos no final.

O feito foi celebrado junto às placas que nos indicavam que apenas faltavam 738.5 km para voltarmos ao ponto de início da viagem...

3 - A conclusão

Retiro duas lições deste desafio:

. a primeira que com grupos organizados e querer fazer/controlar tudo é complexo e não vai correr bem: liderar o grupo, gerir o percurso, fazer a recolha de imagens e manter a comunicação com terceiros é demasiado. Fundamental garantir alguma partilha de tarefas;
. a segunda: planear com um "coeficiente de cagaço" proporcional à dimensão da empreitada. De preferência ser pessimista...

Mas uma coisa é certa: os objetivos fundamentais foram cumpridos! Estrada Nacional 2 (percurso original!) num só dia em Africa Twin (CRF1100L Adventure Sports). Os três elementos do Portugal de Fio a Pavio!

Outro objetivo implicito também foi atingido: zero sobressaltos, incidentes, sustos ou outros percalços! Apenas cansaço... uns mais outros menos (e aqui digo-vos que a Africa Twin é uma companheira espetacular para estes desafios).

Por falar na moto... querem saber como correu a experiência? A minha opinião? E com um bónus? Sim, porque depois tive oportunidade de também experimentar o modelo "normal" e no seu habitat preferido, a terra. Pois bem, está tudo aqui. Leiam e comentem!

Uma palavra para o Aires Pereira: o meu enorme obrigado pela amizade e pela vontade de compartilhar parte deste desafio. E as minhas ainda maiores desculpas pelo desencontro que o fez ir a solo até ao Algarve!

Para terminar, dizer-vos que esta não é a forma ideal de fazer a EN2. De modo algum. A estrada foi apenas instrumental para este desafio e esta experiência. A Estrada Nacional 2 merece que nos percamos nela ao longo de vários dias. Para percebermos todos os contrastes, toda a diversidade de um País que sendo pequeno é enorme naquilo que tem para oferecer a quem o percorre com vontade de o conhecer!

Publicado em 11/02/2020