Desporto

101 Km Ronda 2018 (XXI Edição)

Crónica do Associado Rui Ramalho

Digam o que disserem, os 101 Km de Ronda não têm comparação com nenhuma outra prova. São quinze, apenas quinze segundos o período de inscrição até que se atinja o limite. Porque será?

Não é só pela dimensão da logística envolvida (camiões, jeeps, ambulâncias Hummer 4x4, tendas de apoio e cozinha de dimensões militares), pela quantidade de Atletas, pela mística associada à Legião Espanhola, que é quem organiza, ou pela envolvência total da comunidade por onde a prova passa, mas essencialmente pela marca que deixa em cada um dos participantes e em muitos dos que se chegam perto.

São 101 Km que terão que ser feitos no máximo de 24 horas (12 horas para a versão das bicicletas BTT). Na sexta-feira Ronda é literalmente invadida por milhares de Atletas e acompanhantes tornando as ruas num "Onde Está o Wally?" gigante e ao vivo.

Sábado, a partida é dada às 11 horas locais do estádio de Ronda, que fica repleto de bicicletas e marchantes ansiosos por partirem, bem como toda a bancada central do estádio com os acompanhantes em plena euforia. Ganhar por mês o equivalente a um euro por cada fotografia que é tirada, só naquele recinto, e quase que faria frente ao CR7.

Saem primeiro as bikes e durante trinta contínuos minutos vão saindo cerca de 7500 bicicletas. Depois é pedido um minuto de silêncio pela partida do único legionário que morreu em missão, há 25 anos na Bósnia. Tanta adrenalina e tanta excitação é contida durante 60 segundos num momento arrepiante, tal é o contraste.

Saímos do estádio e durante 3 quilómetros é uma prova de resistência à emoção tal é o mar de gente e os incentivos e acontecimentos entre Atletas e amigos e familiares, e para ver o brutal que é, entramos dentro da Praça de Touros mais antiga do mundo para uma volta única de poucos segundos mas de impacto gigantesco.

Agora, na minha quarta participação, percebo porque alguns dizem que deveria haver um limite de idade para participar nesta prova. Não é pela parte física ou mental que é preciso ter para fazer estes 101 km, mas sim pela parte emocional. São dezenas os Atletas que choram sem pudor na reta da meta e tantos outros que o fazem aí e noutros tantos pontos do percurso (E querem saber? Aposto como há quem ainda o faça depois quando recorda alguns momentos da prova), pois cada passagem pelas povoações é um repetir de emoções, porque, quer os locais, quer quem anda de ponto em ponto a acompanhar, como foi no meu caso, absorvem e ampliam o que o nosso rosto, a nossa postura e o nosso corpo no geral transmitem, quer seja nos momentos iniciais em que ainda estamos plenos de forças, quer seja nos momentos em que as mesmas já nos faltam e são alimentadas apenas por eles.

Um circuito de um belíssimo verde constante ao nível do olhar e de um azul brilhante salpicado de umas quantas nuvens brancas no céu e ladeados por belas montanhas, ora verdejantes ora nuas, com os primeiros 30 km mais rolantes. Depois, um primeiro teste, após Arriate onde recebemos um banho de multidão, numa subida íngreme que apanha a pico do calor. Depois aos 50 km passamos pela mística Setenil de Las Bodegas onde as habitações são encrustadas na rocha da montanha e onde todos e cada um dos espectadores aplaudem efusivamente a nossa passagem, quer estejam de pé a ver passar quer estejam sentados numa mesa a comer umas tapas. Com a particularidade do som sair aumentado pelo facto de estarmos literalmente debaixo da montanha.

A partir daqui a coisa já começa a ficar difícil pois é o acumular de km e desgaste e temos qualquer coisa como 10 km a subir, não muito inclinado mas muito prolongado e 10 km a descer, algumas vezes pouco inclinado, outras que nem sequer consegui correr, nomeadamente numa parte muito conhecida de quem já por lá passou, que é uma descida íngreme de cimento.

A acumulação, parecendo que não, é limitadora, pois, laranja, banana, isotónico aquários e a placa a dizer "Peligro Bajada" já me deixavam de olhos revirados... mas tinha que ser.

Já estava a consumir reservas que não acumulei nos treinos e saber que tinha a minha Sofia à espera no quartel é que me fez andar mais depressa pois só queria lá chegar o quanto antes.

Aos 70 km temos o quartel da Legião Espanhola. Um kit com arroz de legumes e ovo, um cachorro com queijo, um pacote de batatas, uma bebida à escolha, e um chupa. Fazemos a muda de roupa para a parte noturna e preparamo-nos para a etapa mais difícil com mais montanha.

A partir daqui tinha a minha incondicional companheira, a minha filha Sofia, que me acompanhou na subida à Ermida, à descida e subida à montanha por trás da Ermida e todas as outras maldades que nos esperavam, onde o corpo já gritava por descanso, especialmente os quadríceps e as costas, mas onde a cabeça mandava encurtar caminho. Por isso, nas subidas, como subo lento, era ultrapassado por quem vinha por ali, mas nas zonas mais ou menos planas corria a um bom ritmo e ultrapassava-os. Um espanhol dizia-me "Portugueses só vi um (eu levava a bandeira nas costas), mas vi-o muitas vezes".

O pior eram as Bajadas, e que raio de Bajadas aquelas onde em algumas partes tinha mesmo que parar e reforçar o spray analgésico que também foi meu companheiro e amigo. Tinha previsto como melhor tempo 17 horas, 10 horas para chegar ao quartel e 7 horas para a parte difícil. Tinha ganho 1 hora e meia até ao quartel e na parte de montanha, estávamos a conseguir progredir bastante bem também e isso ajudava a não abrandar.

Quando a noite chegou conseguia ver-se, tanto para trás como para a frente, um rasto de luzes que nos dava alento pela parte percorrida e pela que faltava percorrer, e Ronda foi aparecendo iluminada ao longe.

Estava no limite mas pensava que o limite só podia acontecer depois de cortar a meta e lá fomos nós subida após subida, descida após descida percorrendo cada quilómetro como se fosse o último, e chegados à ponte icónica de Ronda já estávamos na reta da meta e mesmo sendo pouco depois da meia noite havia gente a aplaudir e a incentivar como é característico dos espanhois; "animo", "foerça", "campeones".

Bandeira portuguesa hasteada, passo firme, e 13 horas e 25 minutos depois estava a cortar a meta cumprindo mais uma missão.

Comida, massagem, banho quente e um (muito) pouco de descanso e às 8 da manhã já estávamos a engrossar a multidão que se acumula na reta da meta para aplaudir e ver o melhor do ser humano refletido em cada Atleta e em cada apoiante, por isso ser obrigatório, seja qual for a hora de chegada, estar naquele momento naquele local.

Às 11 horas de domingo chega o último Atleta dentro do tempo limite (muitos terão ficado pelo caminho ou barrados por falta de tempo) ajudados pelos militares da Legião Espanhola. Para quem conhece, bem antes do último Atleta chegou com dois batedores com sirenes ligadas o Atleta mais conhecido da prova que se chama Paco e que já tem uma idade bem avançada. Sapatos e calças de caminhada, bastão, camisa e uma determinação rara de exemplo e grandeza.

Escrevi no facebook que estava louco e muito terão esperado que viesse curado, pois o que vos posso dizer de experiência própria é que a loucura não se cura, controla-se. Por isso, se me perguntarem se voltarei a Ronda, o mais provável é responder afirmativamente pois Ronda ainda tem muito para me dar, quer seja a reedição de provas vividas antes com tantos companheiros, quer seja a acompanhar quem me acompanhou quer seja apenas para ir buscar a Ronda o que não se consegue ir buscar a mais lugar nenhum.

Uma nota especial a dois campeões Portugueses, o Mário Marcelino e a sua mulher Carla Velez que completaram Ronda em 21 hora e 9 minutos mostrando a bravura do homem e da mulher portuguesa. O Mário, que não conseguiu inscrição nos 15 segundos fatídicos esperou em pé 6 horas por um dorsal e conseguiu. Esgotados mas com uma satisfação gigante acompanhámos a sua chegada. Parabéns!

Obrigado a todos quanto ajudaram nesta aventura, nomeadamente o Mário Marcelino que preparou grande parte da minha logística numa época que estive completamente sem tempo e mais uma vez à minha princesa que parecendo que não conduziu, apoiou, incentivou, e acompanhou durante 4 horas e 45 minutos de dureza um pai que precisava e aprecia muito daquela companhia.

Agora, é só esperar duas semanas para as pernas descansarem, um mês para tornar a comer banana e laranja, um ano para tornar a beber aquários e estarei pronto para outra.

Aceda aqui a mais fotos deste evento.

Publicado em 03/10/2018