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IronMan Itália - Emilia Romagna


Relatos dos Associados João Carlos Gonçalves e Carlos Abrunhosa


Decorreu no fim de semana de 22 de setembro a competição IronMan de Itália, prova que despertou o interesse dos nossos Associados João Gonçalves e Carlos Abrunhosa.

Confira abaixo as “sensações” que os mesmos relatam do evento.

João Carlos Gonçalves

O IronMan Itália teve lugar no passado dia 22 setembro de 2018 na região da Emilia Romagna (a sul de Veneza) e contou com a participação de 2 atletas do Clube Millennium bcp, Carlos Abrunhosa e João Carlos Gonçalves.

Como é costume nestas provas o dia começa cedo, 4h45m da manhã, por forma a dar tempo a tomar o pequeno-almoço e levar até ao parque de transição todo o equipamento para o segmento de natação, a nutrição para toda a prova e a muda de roupa após a prova. Tudo o resto (bike, sapatos de encaixe, ténis) é deixado no parque de transição no dia anterior.

A prova teve início às 8h10 da manhã com o segmento de natação. Saída em "rolling start". Primeiro partiram os pro´s e depois os Age Groups, por ordem de tempo estimado de conclusão da prova. O segmento de natação é feito no Adriático, com uma saída à Australiana (saída e entrada novamente na água). Apesar da temperatura da água ser elevada (24,8ºc), a organização permitiu aos Age Groups usar o wetsuit (aos pro´s não foi permitido). Sem ondulação (embora com muitas alforrecas), este segmento mostrou-se acessível. Os atletas do Clube Millennium bcp decidiram sair nas boxes para tempos de 1h10-1h20, o que se revelou uma excelente estratégia pois permitiu beneficiar do drafting de atletas mais rápidos. Resultado, foi possível fazer recorde pessoal em cerca de 4-5 minutos em relação ao IM Barcelona (2016).

O segmento de bike foi mais difícil dadas as condições climatéricas (30º-31ºc) e subida muito inclinada (>15%) ao km 40, e que se repetia ao km 140. De tal forma foi difícil que havia atletas a subir com a bicicleta à mão. O efeito conjugado do calor e do esforço de subida constituiu um fator acelerador de desidratação. Embora nos primeiros 90 km tenha sido possível aos atletas do Clube Millennium bcp manter uma boa performance (média entre 30/34 km/h), na 2.ª parte, dado o efeito do calor, não foi possível manter a mesma média.

As bicicletas viajaram no avião (TAP), em caixas rígidas. Tiveram que ser previamente desmontadas (pedais, guiador, rodas, selim) de forma a serem empacotadas. Convém estar preparado para fazer a montagem assim que chegar ao destino, ou então agendar com tempo suficiente (2/3 meses antes) com os mecânicos locais para fazerem a montagem/afinação. Neste caso, os atletas do Clube Millennium bcp optaram por fazer eles próprios a montagem, que não obstante algum stress de última hora, conseguiram pô-las em condições sem recorrer a mecânicos.

O parque de transição era extraordinariamente comprido (400/500m), o que obrigava os atletas a fazer uma distância considerável até chegar aos equipamentos.

O segmento de corrida teve lugar nas ruas de Cervia, local muito bonito, com forte apoio local, embora com muitas viragens a 90º. O piso variava entre asfalto e empedrado.

Os atletas do Clube Millennium bcp tiveram um apoio extraordinário e incansável do Pedro Caeiro, Pedro Quaresma e Rogério Araújo, e respetivas famílias, que incentivaram o tempo todo. Foi muito importante este apoio, especialmente no último segmento, em que o cansaço já é muito grande.

Por força do calor intenso e do esforço no segmento de ciclismo, o segmento de corrida ficou caracterizado por inúmeros atletas não conseguirem correr, fazendo parte (ou todo) o percurso a pé. Os atletas do Clube Millennium bcp, em resultado da boa gestão do esforço, fizeram os 42 km a correr, permitindo novo recorde pessoal em provas de IM.

Há várias lições a tirar desta prova: i) é recomendável fazer uma adequada gestão de esforço, especialmente em ambientes de muito calor por forma a que exista disponibilidade para o último segmento; ii) é indispensável fazer um plano nutricional adequado, que permita concluir os diferentes segmentos com energia suficiente para cumprir o resto da prova; os atletas do Clube Millennium bcp optaram pelo tradicional gel (c/ cafeína), barras, cubos de marmelada, pão e bebidas isotónicas; a opção foi de 60g/90g de hidratos carbono e 2l água + isotónico a cada hora; iii) preparar com antecedência o transporte e a montagem da bicicleta (recorrendo a mecânicos locais, que têm que ser marcados previamente ou por meios próprios); falhar a montagem da bike significa impossibilidade de competir; iv) preparar a prova do ponto de vista psicológico; trata-se de uma competição extenuante em que a vontade de parar, abandonar ou simplesmente "não quero saber, vou desistir" se faz sentir a cada instante.

Carlos Abrunhosa

Se um tipo como o Eliud Kipchoge, recente recordista do mundo da Maratona disse "que ainda estava a aprender sobre a distância", o que posso eu dizer do meu, "apenas", segundo Ironman?

Como vem sendo dito, e bem, não é a modalidade dos 3 desportos, mas sim, dos 4! Natação, bicicleta, corrida e nutrição! Já lá vamos.

Tomei a decisão de participar nesta prova, um ano antes e, pela primeira vez, foi um ano com alguns constrangimentos de lesões que impediram treinar de forma normal a corrida. E apenas a corrida.

Quando a cerca de 3 semanas da prova, fase de aumento de carga, te vês impedido de correr, foi, de facto, um forte revés na minha motivação e entusiamo. Após duas semanas parado e em tratamentos, lá faço 3 testes de 10, 15 e 18 km sem dores. Tinha a perfeita noção que ia impreparado para a corrida, mas não havia como voltar atrás. Vamos lá.

Comitiva do Clube Millennium bcp em viagem tranquila, transporte da bike sem percalços, alojamento simpático em ambiente familiar. O que se quer. Tudo para estarmos serenos.

Dia da prova. Já sabíamos. Previsto 29 graus de temperatura e água do mar um caldo! Ainda mais crítico acautelar corretamente a hidratação e alimentação para um dia com essas particularidades.

Desde os meus 14 anos, quando tirei a minha carta de Marinheiro e até aos dias de hoje, que estou habituado a navegar... mas, na verdade, sou um desastre na minha "navegação" a nadar! Numa prova de 3.8 km, nadei cerca de 4.200 metros! Mais uma vez, às voltinhas! Bom, sempre boas sensações, excetuando o nervosismo que tanta alforreca provocava! No final, 1h14m depois estava concluído o 1.º segmento. O melhor tempo na distância. Muito feliz!

1.ª transição. Desta vez melhor preparado para ser mais rápido que em Barcelona. Não havia mudanças de roupa que tanto tinham atrapalhado. No entanto, um parque em que sair dentro de água e pegar na bike eram cerca de 800 metros! Deitou tudo a perder. Lá foram cerca de 9 minutos. Que desilusão!

Bike. Sentia-me "forte"! Estava otimista para este segmento. Percurso bonito, atravessando salinas, campos de vinhas e pequenas aldeias, muito plano, apenas com uma subida de 1.200m com bastante dureza seguida de descida estreita e algo técnica. Primeira volta de 90 km com uma média de 35.79 km/h. Maravilha. Segunda volta e aparece o vento naquelas planícies e não consigo manter o ritmo. Sempre a sentir bem, no final marcou 5h37m. Meia desilusão, confesso!

2.ª transição. Sem grande história, mais 400m de percurso e mais 6m! Enfim...

Corrida. Percurso sinuoso, piso irregular devido às raízes das árvores. Um mar de gente! Tudo dentro do previsto até cerca dos 20 km. Muito calor e com excelente apoio nos abastecimentos a todos os 2.5 km. "Chuveirada", gelo, esponjas, tudo. A partir daqui, as pernas começaram a "pesar" muito! Foi muito difícil fazer os últimos 22 km! Lutei para não andar. O último segmento do triatlo é uma corrida! Não é uma caminhada! Dizia vezes sem conta para mim mesmo...

Aparecem as cólicas. Sou obrigado a parar duas vezes para visitar as instalações sanitárias (estranhamente limpas)! E é nesta fase que o apoio de quem nos é próximo faz toda a diferença! É difícil verbalizar o que sente. O Pedro Quaresma, o Rogério Araújo e o Pedro Caeiro, a sofrerem porque não estavam "lá dentro". A sofrer como eu! Era onde eles queriam e mereciam estar. Mas, gerindo essa componente, gritavam e puxavam com palavras de incentivo... e mais "toma água ou Coca-Cola" ou "toma este comprimido" (sabiam que estava com cólicas)! Na falta de melhor... Muito Obrigado!

Os últimos 2 km, em modo "automático"; aproxima-se a apoteótica meta. O arrepio no pescoço. Última passagem pelos meus filhos "elétricos" com o entusiasmo; o filho do Pedro Caeiro a correr ao meu lado os últimos 300 metros... 4h12m a correr... e por fim, 11h20m depois chego ao fim.

Esgotado mas feliz! Sensação que o longo caminho percorrido até este momento, valeu a pena! Corpo esgotado... mas cabeça forte! Extenuado... mas bem vivo! Estranho? Talvez, mas apenas para quem não é IronMan!

Até à próxima...

Publicado em 09/10/2018